segunda-feira, abril 16, 2007

O Diário do Homem-Urso

Ontem, depois de muita espera assisti esse documentário do Werner Herzog sobre um homem, bem doido, que passou 13 anos de sua vida passando os verões com ursos selvagens no Alasca. Eu estava doida para assistir por dois motivos. Primeiro porque era um documentário do Herzog e segundo porque tinha ouvido em algum lugar que o cineasta, que também é bem doidão, tinha colocado a imagem do cara sendo morto por um urso. Se o segundo motivo fosse o principal eu estava lascada porque não tem nada disso. Em compensação, a primeira razão foi totalmente contemplada. O Herzog teve a manha de perceber na história do tal Timothy Treadwell muito mais coisa que a tragédia em si.

Resumindo a ópera: o Timothy era um cara meio problemático, sem muito lugar no mundo que um dia foi para o Alasca e resolveu anualmente passar o verão com os ursos pardos e filmar a experiência com o intuito de divulgar a vida selvagem para preservá-la e, teoricamente, protegê-los dos caçadores ilegais. Quando não estava no meio dos ursos (no inverno enquanto seus amiguinhos dormiam), ele ministrava palestras gratuitas nas escolas e tentava divulgar seu trabalho na TV. Até teve um certo reconhecimento, foi no David Letterman, virou uma pseudo-celebridade. Um dia já estava quase indo embora de mais um verão entre os ursos e um deles, mais velho, provavelmente faminto, comeu o Timothy e a namorada dele que justamente naquele verão resolveu ir junto. Na grande maioria das vezes ele ia sozinho.

Como todos sabem acidentes acontecem. Aconteceu com o Ayrton Senna, aconteceu com o Steve Irwin (mesmo que o Irwin morreu depois do Timothy) mas no caso do tal Homem-Urso rolou uma polêmica porque muitas pessoas acharam que ele tinha ultrapassado a barreira do bom senso. Há registros dele tentando passar a mão nos 'ursos amigos', ele dizia que queria 'ser um urso', 'viver como um urso'. Sem contar que o cara não tinha formação nenhuma, não era biólogo, nem veterinário, e mesmo essa coisa de 'defensor' dos animais era um tanto questionável porque, na verdade, ele passava os verões em uma reserva ambiental onde os 'caçadores ilegais', seus inimigos mortais, quase não apareciam. Só aí já dava para fazer um documentário bem legal.

Mas a gente tem que contar com a genialidade do Herzog. Porque ele não se restringiu àquela discussão boçal de 'ele estava certo?', 'ele estava errado?'. Mas também não fugiu da polêmica. Várias questões são tratadas no documentário inclusive essa, mas não apenas. Um ótimo exemplo de enfoque inusitado é o da morte de um cineasta. Herzog, que narra o documentário em primeira pessoa, apaixona-se pelas imagens capturadas durante esses 13 anos pelo Timothy. Tem uma cena super bonita de uma mata ao vento que na verdade é um ‘vazio’ para Timothy uma vez que a ela só existe porque o pseudo-documentarista, como viajava sozinho, ajeitava a câmera no tripé, se posicionava, depois conferia na câmera se estava bem enquadrado para voltar finalmente ao mesmo lugar e dizer seu texto. Nessa cena do 'vazio' a voz em off de Herzog diz que muito da beleza que Timothy captava ele mesmo não se dava conta. E era mesmo.

O mais bonito de tudo do documentário, no entanto, que eu inclusive deixei propositalmente para o final, foi a bem sucedida tentativa de Herzog de entender a natureza daquele homem, não a luta entre homem e natureza. A grande, brilhante, genial sacada do Herzog foi retirar das imagens, dos depoimentos, dos monólogos meio alucinados de um sujeito que estava sozinho no mato há quatro meses, a sua humanidade. Porque a conclusão óbvia seria: a natureza venceu o homem. E venceu mesmo, venceu principalmente a sua idealização, o seu desejo de ter na natureza um berço, um afago. A natureza não tem dó de ninguém. Ok, é isso mesmo. Porém – e é o olhar sensível do Herzog que mostra que há sim um porém – foi através dessa experiência, que aquele ser encontrou a sua humanidade. Na tentativa de se transformar em urso ele viveu intensamente a experiência de ser um homem. Tanto que durante as expedições Timothy Treadwell tem momentos de absoluta euforia (quando está com ursos ou raposas), emoção profunda (chora ao se despedir dos animais), de fúria (com quem eles estão pensando que estão falando, eu sou um guerreiro, eu conheço como ninguém esses ursos e essas terras e sou o protetor deles), de vaidade (ele está no meio do mato, sozinho, e pergunta para si mesmo, várias vezes, se o cabelo está arrumado, se deve usar a bandana verde ou a preta, qual é a mais sexy), de paranóia, de narcisismo, de bondade. É essa condição humana que Herzog consegue obter da tragédia e que é brilhante. Muitos críticos do homem-urso diziam que Timothy Treadwell era um idiota, que a sua relação com os ursos era muito mais desrespeitosa que bonita. Herzog mostrou, sem desmenti-los, que o ser humano é muito mais complexo para se deixar restringir apenas pelas atitudes lógicas e de bom senso e, principalmente, provou mais uma vez, para o meu deleite, que é um puta cineasta.


o doidão com seus ursinhos

4 comentários:

enquanto dá disse...

AH, consegui abrir o pop up dos comentários! Onde você viu esse filme? Digo, pegou em alguma locadora ou baixou da internet?

Ludmila disse...

Não, eu assisti no Discovery Channel. :-)

Lori disse...

Ai, eu total me sinto urso tbm. Direto quando eu comento meu amor e admiração completa por ursos alguém solta "tipo aquele cara que amava tanto ursos que morreu comido por eles". Mas eu nunca sabia o nome "daquele cara", agora quero ver esse documentário também! :D

Larissa disse...

Eam.. a gente não sabe se ele estava certo, errado, se sentimos pena ou não.. Ele parecia ser um pouco louco.. Mas essa era a vida dele.. E sua morte aconteceu da maneira que sempre previu. Quem sabe hj ele não eh um urso de verdade?

=**