quarta-feira, abril 11, 2007

Filhos de Javé

Ontem eu fui pra análise puta. Trabalho, mudança, banheiro, espelho, registro em cartório, IPTU, ex-proprietário, reforma, o escambau. Falei, falei e decidi ir tocar tambor.

Foi a melhor coisa que eu fiz. Porque no tambor você desopila física e mentalmente. Une música, cultura, exercício e controle motor. Porque além de carregar um tamborzão, tem que aprender a bater no ritmo, de preferência direitinho, cantar e ainda dançar, nem que seja um passo pra frente e outro pra trás. Parece fácil, mas não é não.

E tem o Tizumba que é um fenômeno a parte. O cara ensina, dança, improvisa, você olha e fala meu, esse cara tem muito talento. O ensaio já vem com um show embutido. Além dessa proximidade com a raiz africana que é muito importante para mim. Num determinado momento o Tizumba dançou com as gungas (latinhas com sementes e chumbinho dentro) no tornozelo e me lembrei das procissões de Congado que assistia no Barreiro e que eu achava tão bonito.

A Zélia, filha do rei do Congado do Barreiro cuidava de mim quando criança e eu adorava ir até a casa dela porque além de gatinhos, tinha um quarto onde as roupas do Congado ficavam e as cores eram maravilhosas. A casa era super simples, os pilares eram feitos de lata de óleo Salada cheias de cimento. Então a entrada da casa era toda amarela, eu achava lindo. A Zélia também tinha um irmão, o Márcio que trabalhava na oficina do meu primo. Na procissão ele saía com uma roupa branca toda enfeitada e dançava com as gungas. Provavelmente um dia iria substituir o pai como rei do Congado e por isso tinha um porte meio de príncipe. Eles todos eram meio mágicos para mim, como se tratasse de alguma monarquia perdida da uma tribo africana longínqua, tipo o Nelson Mandela, sabe?

Então o tambor do Tizumba é uma espécie de reencontro com a minha infância e com as minhas raízes negras e sertanejas. E eu acho isso lindo, muito melhor que ficar brigando com gente chata, sisuda e pão-dura que insiste em me rodear e que na verdade eu quero bem longe de mim. Olorum, xô miséria!

5 comentários:

enquanto dá disse...

Eu também lembro do pessoal do congado na minha infância... lembro das fitas, muitas fitas coloridas... e aí eu tenho pena das crianças de hoje que não vêem mais pessoas interessantes fazendo coisas antigas e bonitas e cheias de mistério. E que por isso talvez terão uma memória de computador e nintendo...

Ludmila disse...

Essa coisa de minino preso em quatro paredes é triste mesmo e acho que a responsabilidade é do adulto. Pode até ter menos 'coisas antigas e bonitas e cheias de mistério' hoje em dia, mas ainda existe e a gente tem obrigação de apresentá-las aos mais novos.

Kenji disse...

quem canta os males espanta ;-)

que bom que vc tem o tambor ;-)

Anônimo disse...

tá, o tizumba é foda que eu sei.
mas esse papo de que tambor resolve tudo...
conversa com ele, nega. ele te conta.

Ludmila disse...

Que o tambor não resolve tudo a gente sabe. Aliás, seria ótimo se existisse um solucionador universal, né? Só que infelizmente falta esse produto no mercado. :-) O tambor foi ótimo para mim, naquele momento, para desestressar e, principalmente, serviu de contraponto para as mil pendengas que eu estava passando e agradeço por isso. Agora, problema tem em qualquer lugar, não tem muito jeito.