quarta-feira, outubro 12, 2011

A furadeira de fazer papá – ou sobre marketing, dia das crianças e até Giselle

Como profissional de marketing, reconheço que somos treinados para identificar tendências e padrões. O objetivo é agregar valor aos produtos que vendemos. Quanto mais um produto (seja um pedaço de plástico, um sabonete, um avião, ou um componente de computador) ganhar ‘valor’ subjetivo por meio do marketing, melhor. Para fazer isso identificamos na sociedade padrões e valores que nos auxiliam nesse intuito. Sim, administração e marketing são ciências sociais e suas ações interferem, impactam, transformam e consolidam papéis na realidade social. Até aí tudo bem. Vivemos em uma sociedade capitalista e convivemos com as dores e delícias dessa realidade.

E como sociedade, temos que aprender mesmo que a duras penas. Com a indústria tabagista, por exemplo, aprendemos que limites são necessários. Há 50 anos a indústria do cigarro fazia todo tipo de publicidade, patrocinava Hollywood, fazia um marketing perfeito: vendia desejo, status, prazer. As mais de mil substâncias tóxicas envolvidas no papelzinho branco eram meros detalhes. A dependência química, quando descoberta, foi motivo de alegria e não de preocupação. Hoje pensar nisso nos parece uma loucura não? Voltando ao exemplo, o fato é que o número absurdo de mortes e o descaso da indústria com os “efeitos indesejáveis” de seu produto dos sonhos fez com que a sociedade se mobilizasse. Através do Estado, que mudou suas leis, informou a população dos riscos e cobrou na justiça, hoje a indústria tabagista é regulada. Fuma quem quer, mas a festa da propaganda acabou.

Gosto desse exemplo porque ele serve para duas reflexões importantes. A necessidade de regular os abusos mercadológicos da indústria alimentícia, de brinquedos, de cosméticos que não se constrangem em focar deliberadamente nas crianças, é uma delas. A outra é o papel da sociedade nessa batalha.

E aí me lembro da Giselle e a tal propaganda de calcinha. Será que os profissionais de marketing vão continuar virando as costas para a sociedade e fingindo que é legal tratar a mulher como idiota? Será que eles não percebem que se a Secretaria de Políticas para as Mulheres tomou uma atitude foi porque a sociedade assim solicitou? Por mais que os reacionários e comprometidos com as gordas verbas publicitárias bradem que não, gritem e esperneiem como baratas submersas no Detefon, isso é um fato.

Não adianta tapar os ouvidos, os movimentos sociais existem. E sim, eles também interferem no mercado. Os profissionais de marketing deveriam saber disso. Todo produto pode ser vendido com inteligência e ética. O desafio que fica é justamente descobrir os padrões e tendências certos. Não porque isso é louvável, mas porque é necessário para atender as demandas da sociedade. Isso vale para vender veneno em doses homeopáticas, comida, sutiã ou brinquedos.

E aí finalmente chegamos ao dia das crianças. Tudo que foi colocado aqui se aplica, infelizmente, ao bombardeamento que as crianças sofrem para consumir. E nessa data específica, o recado permanece para o mercado, mas é mais importante para os pais. Estamos no meio da batalha para não transformar nossos filhos em meros compradores de produtos. O arsenal, quando se trata de crianças, é pesado. Mas quem define ainda somos nós. Temos que entender que não existem brinquedos de meninos e de meninas, assim como nenhuma entre dez estrelas jamais usou lux luxo na vida. Dividir as gôndolas das lojas em ‘azul’ e ‘rosa’, vender esmalte ou batons “próprios para meninas” são artifícios mercadológicos meticulosamente avaliados para otimizar vendas. Apontar para as consequências maléficas que isso causa para a construção da autoimagem das nossas crianças, é problema nosso.

Hoje, a minha filha ganhou uma mesa de ferramentas com martelo, alicate, parafusos e uma furadeira. Quando foi perguntada, ela disse que usaria o martelo para consertar a porta e a furadeira para fazer papá. Morremos de rir. É essa liberdade que aos dois anos ela precisa, de opções e liberdade para exercitar a imaginação. Pense nisso na próxima vez que comprar a primeira bobagem cor de rosa que um vendedor lhe apresentar.

Este post retira esse blog de sua tumba e faz parte de uma blogagem coletiva sobre infância e Consumo do grupo de discussão Blogueiras Feministas.

Teresa e sua furadeira de fazer papá

2 comentários:

Clara Machado disse...

estava com saudades da sua escrita. Que bom ter voltado!
bjs e saudades da Lud tb.

Clara

Pcesar disse...

O que você disse é muito importante . Você colocou o dedo direto na coisa. A questão é que o mundo é formatado, agora, pela coisa, e a coisa formata e reformata , cada vez mais rápido , de tal forma que mesmo você , sendo mãe e entendendo a linguagem , não poderá competir com os imputs que sua filha receberá por todos os meis isuais possíveis .Eu tinha esperança no CONAR . Mas isso é uma daquelas coisas do seu ramo de negócios equivalente àquelqas coisas do meu ramo de negócio. Com o perdão da palavra, somos como putas. Temos que dar antes para recebermos depois . E recebemos novos pedidos que vão desetruturar ainda mais o convívio sadio, a crença nos valores que realmente valem a pena . Tenho dúvidas sobre se a publicidade conseguirá cabeças diferentes de duda mendonça, nizan guanaes e outros . são todos crápulas . Pesquiszam carências inúteis para vender necessitades fúteis. obrigado pela atenção. Desculpe pela palavra que nasceu da raiva.