Tem uma coisa engraçada na psicanálise que é a redefinição da realidade. Tipo, tem uma coisa que aconteceu na sua vida e de repente o analista questiona se aquilo aconteceu de fato, da forma como você apreendeu. Não que ele, ou ela, não compreenda que se você apreendeu daquele jeito, aquilo é aquilo pra você, mas surge uma oportunidade de redefinir algumas coisas. Inclusive no seu passado, inclusive no seu presente e, com isso, no seu futuro também. Porque talvez você espere que uma situação se repita, e compreender que é possível apreendê-la de outra maneira, dá uma certa liberdade.
Uma vez eu vi um psicanalista num programa excelente que passava na TV Cultura e que eu acho que não passa mais, chamado Café Filosófico. Ele disse que neurose é como um caminho da roça. Você aprende a utilizar aquele caminho e depois é muito difícil, e segundo o próprio é necessário muita coragem, para encontrar outras maneiras de chegar ao lugar desejado. O exemplo que ele usou era simples. Uma criança só obtinha a atenção da mãe através da violência. Numa outra casa, em outro contexto, a criança provavelmente iria incomodar ao máximo todo mundo até alguém não agüentar mais e tratá-la com violência. O ciclo então estaria fechado. Ela teria a devida atenção da única forma que sabia, apanhando. Depois que eu assisti a palestra desse cara eu resolvi fazer análise.
Sobre esses caminhos, dá pra dizer que às vezes você passa por alguns deles que não foram construídos exclusivamente por você ou pela sua família. Alguns são comuns para uma parcela da sociedade seja em função da classe social, do gênero, da religião. Claro que nem todos os membros dessa parcela vão necessariamente adotar esse caminho. Ele só é conhecido por muitos. Por exemplo, a depressão. Põe o dedinho aqui quem não conhece alguém que passou por ela, ou melhor, põe o dedinho aqui quem nunca a encontrou. Por que nós nos deprimimos? Provavelmente porque dividimos vários desses caminhos tortuosos.
Entre esses grupos, que costumam dividir tais caminhos, estamos nós, as senhoras mulheres. A Lori falou uma coisa que é verdade, há pouco mais de um século atrás, nem gente nós éramos. Ou como diria meu professor de filosofia, "a mulher torna-se sujeito no século XIX". Acontece que para "tornar-se sujeito" paga-se um preço. Inclusive os homens já o pagaram. Hoje o pagamos todos. Antes quem não chorava eram os homens. Atualmente ninguém mais pode chorar. Nós mulheres devemos ser tão duras, racionais e objetivas como qualquer um. Como se qualquer ser humano não tivesse o direito de deixar-se levar pelas suas próprias emoções. Nós nos encarceramos onde antes apenas os homens se trancafiavam. Encontram-se, os sexos, no mesmo caminho. O errado, evidentemente.
Para piorar, as diferenças entre os gêneros permanecem, e o caminho afeta cada um de maneira específica. Nós tentamos nos adaptar e muitas vezes negamos o que somos. Um exemplo interessante é a relação com a maternidade. Hoje em dia existem dois tipos de mães: as precoces e as tardias. Ninguém mais pensa em engravidar aos 23, 24 anos, o que ocorre são os acidentes, quase sempre reprovados socialmente. E a razão é simples, nessa idade, a mulher acabou de se formar e tem uma carreira para construir. Como arrumar um emprego razoável, fazer um mestrado, um doutorado, a viagem dos seus sonhos, com um filho para sustentar? Resta às mulheres, portanto, dedicarem-se ao trabalho e tornarem-se muito bem-sucedidas. Muitas, entretanto, descobrem, tardiamente, que o que mais queriam na vida era um filho. E assim caminha a indústria da reprodução assistida. O pior é que essa falta de espaço nas nossas vidas alcançou, inclusive, a menstruação. A TPM é o mal do século. Nós, mulheres, não sabemos mais lidar com a fragilidade. Com o recolhimento. Com o 'sentimento à flor da pele'. Isso é coisa de gente fraca, que se deixa levar pelas emoções, não é racional nem objetivo. Não nos serve. Não há tempo mais para isso. Nos tornamos seres que descartam o que lhes é inerente para seguir um caminho que nem mesmo construímos. Não seria hora de nos colocarmos sob uma nova perspectiva?

Que fantasia é essa??